quinta-feira, 5 de março de 2015

APRESENTAÇÃO


"Pensar que o homem nasceu sem uma história dentro de si próprio é uma doença. É absolutamente anormal, porque o homem não nasceu da noite para o dia.Nasceu num contexto histórico específico, com qualidades históricas específicas e, portanto, só é completo quando tem relações com essas coisas.Se um indivíduo cresce sem ligação com o passado, é como se tivesse nascido sem olhos nem ouvidos e tentasse perceber o mundo exterior com exatidão. É o mesmo que mutilá-lo."

Carl Jung


Este blog é destinado principalmente, mas não exclusivamente, aos meus alunos do Ciep Brigadeiro Sérgio Carvalho (165), com o objetivo de proporcionar o contato com textos diversificados e complementares aos trabalhados em sala de aula.

Todos os comentários e perguntas serão bem-vindos, desde que pertinentes aos temas e aos textos.

Boa leitura e bom estudo !

Prof. Omar de Almeida

MÁTERIA PARA AS PROVAS DO 1o BIMESTRE de 2015:

1o ano: Introdução ao estudo da história + Grécia e Roma + História Medieval (feudalismo e cristianismo) + Islamismo + caderno.


2o ano: Antigo Regime e Iluminismo + Revolução Francesa + Revoltas nativistas e conjurações no Brasil colonial + Chegada da Família Real ao Brasil + caderno.

3o ano: República Velha + 1a Guerra Mundial + Nazi-fascismo + 2a Guerra Mundial + O holocausto + caderno.

Boa Prova!

METODOLOGIA DE ESTUDO:


ROTEIRO PARA LEITURA E ESTUDO

Uma das maiores dificuldades dos alunos atuais é a leitura e sua interpretação. Às vezes um texto muito interessante passa despercebido porque não sabemos ler!

Saber ler não é simplesmente ser alfabetizado.
Saber ler é conseguir pensar com o autor, compreendê-lo e criticá-lo.

Apresentamos abaixo um pequeno roteiro para auxiliá-lo em sua leitura:

* Ler uma vez com atenção
* Anotar as palavras desconhecidas
* Procurar no dicionário seu significado
* Reler o texto
* Sublinhar (ou marcar) as idéias mais importantes
* Anotar as críticas e observações
* Discutir as idéias principais do texto com seus colegas.


Atenção aluno:

Nunca aceite opiniões prontas e definitivas! Quando ler um texto, de qualquer assunto, sendo possível, procure outras fontes e autores, analise e tire sua própria conclusão!!


Boa Leitura!!

ATIVIDADES PARA O 1o ANO:

ATIVIDADE  I


                              Perguntas de um Operário que lê
    Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.

Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões. 

 Quem escreveu o poema acima foi o poeta alemão Bertold Brecht, nascido em 1898 e morto em  1956. Através de suas palavras, podemos fazer uma importante reflexão sobre o que estudamos, a      História. Após a leitura do texto, reflita sobre os pontos abaixo.
  1. Quem, afinal, construiu a cidade de Tebas, a Muralha da China e os arcos de Roma? 
 2. Os Reis que aparecem nos livros (como Alexandre e César) alcançam seus grandes feitos    sozinhos? Justifique,
  3. Se as histórias que aparecem nos livros tivessem sido escritas pelos operários que transportavam  as pedras, pelos pedreiros que construíram os monumentos ou pelo cozinheiro de César, que  personagens apareceriam nesses livros? 
  4. A história escrita pelos reis, generais e “grandes homens” citados no texto seria a mesma escrita  pelos trabalhadores? Justifique.
  5. Em um trecho, diz que “o jovem Alexandre conquistou as Índias” e, em outro, que “César venceu  os gauleses”. A história dessas batalhas escrita por Alexandre e por César seria a mesma escrita pelos  Indianos e pelos gauleses?
  6. Que fatores você acha que influenciam nessa diferença na forma de contar a mesma história?
  7. Você acha importante que os livros abordem essas diferentes histórias (a dos reis, mas também a  dos trabalhadores)? Por quê?

ATIVIDADES PARA O 2o ANO:


ATIVIDADE  I

Prezado aluno, existiram vários filósofos iluministas no século XVIII. Entre eles Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Nascido na Suíça, Rousseau se mudou para a França em 1742 e escreveu uma importante obra, O Contrato Social, onde afirmava que o soberano deveria conduzir o Estado de acordo com a vontade da maioria do povo. Para ele, apenas assim haveria uma sociedade mais igualitária.

Leia abaixo mais um trecho da sua obra:

“Eu concebo na espécie humana duas espécies de desigualdades: uma, que chamo natural ou física, porque foi estabelecida pela Natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças corporais e das qualidades do espírito ou da alma; outra, a que se pode chamar de desigualdade moral ou política, pois que depende de uma espécie de convenção e foi estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios desfrutados por alguns em prejuízo dos demais, como o de serem mais ricos, mais respeitados, mais poderosos (...)”

ROUSSEAU, Jean-Jacques. O contrato social e outros escritos.

Após a leitura desse trecho, responda sobre as desigualdades que o filósofo apontava.

1) Qual desigualdade você acredita ser a mais grave, as naturais ou aquelas de natureza política? Justifique.
2) O que causava a desigualdade política?

quarta-feira, 5 de março de 2008

TEXTOS PARA O 1o ANO:

A
Aula 1: Introdução à História 

Caro aluno, nessa aula, vamos conversar sobre História. Você já se perguntou quem escreve a História? Você acha que a História é uma ciência neutra, ou seja, que existe apenas uma visão sobre os fatos históricos? E quem são os “personagens” da História, ou seja, quem são os agentes da História? Você acha que a História é uma ciência neutra, ou seja, que existe apenas uma visão sobre os fatos históricos? Vamos tentar, aqui, responder essas perguntas.
Em primeiro lugar, é preciso compreendermos que todos nós somos parte da História e somos agentes da História. Durante muito tempo, apenas “grandes personagens”, como reis, rainhas e generais entravam nos livros de História. Mas hoje em dia, isso mudou e as “pessoas comuns” também passaram a ser vistas como sujeitos da história. Assim, ganhou lugar nos livros os escravos, as mulheres, os trabalhadores, etc. Isso quer dizer que você, aluno, também tem um papel na história da sua Cidade, de seu Estado e de seu País. Através das suas ações você está fazendo História. Mas quem, afinal, coloca essa história no papel, nos livros? Quem escreve sobre história são profissionais chamados de HISTORIADORES.
Assim como todo profissional, os historiadores estão inseridos em um contexto social. São pessoas que possuem posições políticas, afinidades religiosas, preferências e opções diversas. Tudo isso reflete em sua versão sobre o fato histórico sobre o qual ele irá escrever. Isso não quer dizer, no entanto, que os fatos históricos podem ser contados de qualquer forma e que cada um pode abordar a história da maneira que bem entender. E, sim, que as análises sobre os fatos podem ser diferentes. Por isso, dizemos que a história não é neutra.
É possível caro aluno, que você esteja se perguntando como os historiadores conseguem saber de tantas coisas que aconteceram há tanto tempo atrás. Mesmo podendo existir pontos de vistas diversos sobre determinado fato histórico, o “fato histórico” em si precisa ser conhecido antes de ser interpretado. É justamente aí que entram as Fontes Históricas, principal instrumento de trabalho dos historiadores. As fontes Históricas são vestígios da passagem dos seres humanos pela história através dos tempos. São documentos que ajudam os historiadores a interpretar e contar os fatos do passado. As Fontes Históricas podem ser: Escritas: livros, jornais, certidões de nascimento, testamentos, etc.

Durante muito tempo, as fontes escritas foram mais valorizadas que os outros tipos de fontes. Isso acontecia porque se acreditava que apenas as culturas letradas das elites eram dignas de atenção e confiança e, assim, de uma História. No entanto, isso mudou e, atualmente, os historiadores acreditam que todos os povos e grupos sociais possuem suas formas de transmissão e produção do conhecimento e que todas elas devem ser valorizadas. Na África, por exemplo, muitos povos não conheciam a escrita antes do contato com europeus. No entanto, esses povos transmitiam conhecimento através da oralidade, da contação de histórias. Dessa forma, as “fontes orais” são essenciais para compreender a história desses povos. Agora que já identificamos o que são as fontes históricas, vamos exercitar nossos conhecimentos.

                       &&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&

No texto a seguir, Norberto Luiz Guarinello, professor de História Antiga da Universidade de São Paulo (USP), reflete sobre a cidadania nas cidades-estado da Antiguidade.

Cidade- Estado e Cidadania

Pertencer à comunidade da cidade-Estado não era, portanto, algo de pouca monta; mas um privilégio guardado com zelo, cuidadosamente vigiado por meio de registros escritos e conferido com rigor. Como já ressaltava o filósofo grego Aristóteles, fora da cidade-Estado não havia indivíduos plenos e livres, com direitos e garantias sobre sua pessoa e seus bens. Pertencer à comunidade era participar de todo um ciclo próprio da vida cotidiana, com seus ritos, costumes, regras, festividades, crenças e relações pessoais.

Não podemos, no entanto, entender a formação dessas comunidades apenas como um processo de inclusão, já que o fechamento da cidade-Estado implicava, necessariamente, a definição do outro e sua exclusão. E o outro não era apenas o estrangeiro, mas muitos dos habitantes do próprio território das cidades-Estado. Eles participavam da sociedade com seu trabalho e recursos, mas não se integravam ao conjunto dos cidadãos. Este é um ponto crucial, cuja importância aumentou com o crescimento de várias cidades-Estado, por expansão econômica ou militar. Muitas delas, sobretudo as maiores e mais poderosas, como Atenas, Esparta ou Roma, abrigavam vasta população não cidadã, completamente excluída do corpo de cidadãos. As possibilidades foram múltiplas e se alteraram com o tempo, mas podemos sintetizá-las em três casos exemplares.

O primeiro é o dos estrangeiros domiciliados, presentes sobretudo nas cidades portuárias e comerciais, como Atenas. Embora integrados à vida econômica e à teia das relações sociais, eles não faziam parte da população cidadã. Outro exemplo eram os grupos submetidos, em bloco, ao domínio e controle da comunidade cidadã, mormente após uma conquista militar, como os hilotas e periecos de Esparta - situação que se repetia em muitas colônias fundadas pelos gregos, nas quais o trabalho fundamental das terras agrícolas era realizado por comunidades subalternas. Ao contrário dos estrangeiros domiciliados, que se acomodavam com sua situação, essas comunidades foram fonte permanente de conflitos com a cidade-Estado dominadora, quase sempre em busca da independência coletiva e às vezes de integração.

Havia, por fim, os escravos, cuja situação no seio das cidades-Estado era peculiar. Encontravam-se sob o poder de seus donos e eram regidos por regras privadas, sem controle cívico, acesso à esfera pública ou quaisquer direitos. Nas cidades mais ricas, em certos momentos, chegaram a compor um contingente expressivo da população - um terço ou até mais. Ocupavam todo tipo de ofício, agrícolas e artesanais, e monopolizavam os serviços domésticos. Submetidos a um poder sem limites, sem lei, ao arbítrio de seus senhores, os escravos foram, por boa parte da história do mundo antigo, fonte de conflitos intensos - desde lutas domésticas contra seus senhores até grandes sublevações, como a famosa revolta de Espártaco na Itália romana. Esses conflitos, no entanto, jamais objetivaram sua integração à comunidade cidadã nem tampouco a abolição da escravatura, mas apenas a liberdade individual dos revoltos.

Todas as cidades-Estado, portanto, conviveram ao longo de suas histórias com inimigos internos por vezes formidáveis. O processo inclusivo de constituição das comunidades cidadãs forjou-se simultaneamente a um brutal processo de exclusão interna que se tornou cada vez mais agudo, na medida em que algumas dessas cidades cresceram em poder e complexidade social.

GUARINELLO, Norberto Luiz. Cidades-Estados na Antiguidade Clássica. In: PINSKY, Jaime; PINSKY, CarIa Bassanezi (Orgs.). História da cidadania. São Paulo; Contexto, 2003. p. 35-6.


Grécia e Roma: Sociedade e economia


Por Neri de Paula Carneiro

Podemos partir da indagação: quais podem ser apontadas como sendo as bases sociais e econômicas do mundo Greco-romano? Em poucas palavras: Uma economia agrária que se assenta sobre o escravismo.

Quem vive no contato com a sala de aula, por certo já ouviu a pergunta sobre o porquê de se estudar as sociedades antigas.Entre inúmeras respostas possíveis, uma diz respeito ao fato de aí estarem plantadas as raízes da nossa sociedade. O mundo ocidental em que vivemos nasceu do sincretismo de elementos gregos, latinos e cristãos. Não somos nem cristãos, nem gregos ou latinos, somos uma construção cultural envolvendo esses e outros elementos. Foram os processos históricos que nos transformaram no que somos: o mundo ocidental construídos a partir dessas raízes.

Em vista disso é se torna válida a indagação sobre como se organizava a sociedade e a economia dos povos gregos e latinos.

Como já foi afirmado acima, o mundo grego é um emaranhado cultural que mantém alguns traços em comum: a língua, alguns costumes e o fato das cidades-estado serem administradas por uma elite oligárquica, caracterizando um mundo descentralizado. Por isso o que se diz de uma cidade grega, nem sempre se aplica a outras. As características de Atenas são bem distintas de Esparta. E ambas se diferenciam de Tebas ou Corinto. Mas em todas teremos uma sociedade fundamentada no trabalho escravo e administrada pelo que podemos chamar de elite agrária pois vive da exploração da terra, por meio do trabalho escravo. As particularidades, como já dissemos, devem ser buscadas em cada região ou em cada época. Entretanto esses traços comuns permanecem.

No mundo romano, contrariamente ao mundo grego, ocorre centralização político-administrativa. Ademais, a centralização administrativa na cidade de Roma pode ser apontada como a causa principal para a formação de um imenso império e o mesmo ter se mantido unido e relativamente estável por vários séculos. Assim, ao falarmos do mundo grego não podemos, em princípio, ter um cidade em particular, embora Atenas e Esparta, em geral, sejam as cidades de referência; já o mundo romano se fundamenta nas decisões adotadas pela elite patrícia reunida na cidade de Roma.

É evidente que existem as particularidades e especificidade de cada época, entretanto podemos dizer que nas sociedades grega e romana existem características comuns: são formadas por proprietários de terra que a exploram com mão de obra escrava. A posse da terra, em ambas as sociedades, é o elemento determinante para a caracterização da cidadania. E, além disso, são essas elites que determinam os rumos políticos da sociedade. Nas cidades-estado gregas, os proprietários-cidadão, escolhem entre si e entre os mais ricos aqueles que deverão comandar a cidade; no mundo romano essa atribuição cabe aos patrícios.

E aqui cabe mais um esclarecimento. A cidadania depende da riqueza originária da terra. A posse da terra possibilita a concentração da riqueza e esta, por sua vez é uma das condições da cidadania. São os cidadãos que detêm o poder político e, portanto, constroem a democracia. Por esse motivo é que a democracia, além de ser fruto da riqueza, depende do trabalho escravo. No mundo grego o cidadão é cidadão porque tem escravos aos quais explora e dos quais depende sua subsistência e em oposição ao estrangeiro que pode ate ser rico mas não pode gozar da cidadania, como comenta Florenzano (1986, p. 26): Desde o período arcaico

"a idéia e a prática da comunidade igualitária e, portanto, de democracia vão se cristalizando. Em contrapartida à noção do cidadão participante, membro integrante da comunidade na verdade a pólis são os cidadãos a noção de escravo mercadoria e a de estrangeiro aparecem com muito maior nitidez. Democracia e escravidão apresentam-se a partir desta época como idéias dependentes entre si".

Em outras palavras podemos dizer que o mundo grego, da mesma forma que mais tarde ocorreria com Roma, não teria produzido a cultura e as inovações que nos legou se não tivesse explorado o trabalho escravo (CARNEIRO, 2008). Grécia e Roma ganharam o destaque e tornaram-se a gênese do mundo ocidental em virtude da exploração do trabalho escravo. Por isso, em oposição ao mundo oriental, e ao modo de produção asiático o ocidente nasce com o modo de produção escravista: explorando a mão de obra escrava as elites se apropriaram da terra e das decisões políticas.

Isso posto podemos dizer que a economia tanto no mundo Grego como romano tinha por base a exploração do trabalho escravo e, embora ambas as sociedades fossem urbanizadas, as principais atividades produtivas eram relacionadas à terra. Os escravos realizavam todas as atividades, tanto na cidade como o campo. Entretanto as atividades rurais eram aquelas que mantinham a subsistência das cidades gregas e do mundo romano.

Nessas sociedades só existiam ricos e escravos? É a pergunta que muitos podem estar se fazendo, diante do exposto. A resposta é não. A estrutura social do período clássico era relativamente complexa. Além dos cidadãos (cidadão, no mundo grego e patrício, no mundo romano), existiam várias camadas sociais formadas por pessoas livres. Constituíam-se de médios e pequenos proprietários, artesãos, além de uma infinidade de pessoas que viviam às custas de vender o próprio trabalho ou na extrema miséria. Eram tantos em Roma, a partir do século II aC., que muitas vezes eram usados pelos grupos rivais nas lutas pelo poder. Formavam uma verdadeira "massa em disponibilidade, pronta a lutar ao lado de um ou de outro partido político. Daí o nome de 'classe perigosa' [...]. Com efeito, sua participação como massa de manobra foi intensa durante as crises" (FLORENZANO, 1986, p. 83). Para essa multidão foi que a partir de Augusto se desenvolveu a política do pão e circo.

Apesar de existirem inúmeras camadas, nas sociedades grega e romana, elas pouco representavam em termos de decisão política ou poder econômico. Sua função era exercer a atividade para a qual se constituíam. Eram o que Homero chamou de "demiurgo" trabalhador livre, com uma especialidade.

Tudo isso implica dizer que, apesar de existirem as especificidades de cada sociedade, o mundo grego e romano possuem grandes semelhanças e, porque não dizer, continuidades...

ARISTÓTELES, A Política. Disponível em: , acesso em 10/02/2010

BLOCH, Marc, Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar. 2001.

CALDAS, Alberto Lins. A criação da história. In. Primeira Versão. ano V, nº 180 - fevereiro - Porto Velho, 2005. Disponível em:

CARNEIRO, Neri P. Estudar História in: www.webartigos.com, publicado em: 7/04/2008. Disponível em:

CARNEIRO, Neri P. Porque A Filosofia Nasceu Na Gréciain: www.webartigos.com, publicado 2/04/2008. Disponível em:

FLORENZANO, Maria B. B. O mundo antigo: economia e sociedade. 6 ed. São Paulo: Brasiliense. 1986

Neri de Paula Carneiro Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo, Historiador.

Leia mais: ; ;

Texto retirado do site:http://www.webartigos.com/artigos/grecia-e-roma-sociedade-e-economia/32859/



Breve Esboço sobre o Egito Antigo
Prof. Omar de Almeida

Os historiadores costumam dividir a história do Antigo Egito em três grandes períodos:

Antigo Império (3200 a.C. a 2300 a.C.) : Período da unificação do Alto e baixo Egito, da expansão do Império e da consolidação do poder dos Faraós. Foi também a época da construção das grandes pirâmides.

Médio Império (2000 a.C. a 1580 a.C.): Período turbulento que acabou com a invasão e vitória dos Hicsos, que tomaram o poder dos faraós egípcios.

Novo Império (1580 a.C. a 525 a.C.): Período da expulsão dos Hicsos e da construção de grandes templos como Karnac e Luxor.

Geograficamente esta civilização desenvolveu-se no nordeste africano (margens do rio Nilo) em uma região formada por um grande deserto (Saara), o que tornou o rio Nilo de extrema importância para os egípcios. O rio era utilizado como via de transporte de mercadorias e pessoas. As águas do rio Nilo também eram utilizadas para beber, pescar e fertilizar as margens, nas épocas de cheias, favorecendo a agricultura.

A sociedade egípcia estava dividida em várias camadas, sendo que o Faraó era a autoridade máxima, além de dono de todas as terras do país e era considerado um deus, a encarnação de Amon-Rá. Sacerdotes, militares e escribas (responsáveis pela escrita) também ganharam importância na sociedade. Esta era sustentada pelo trabalho e impostos pagos por camponeses, artesãos e pequenos comerciantes. Os escravos também compunham a sociedade egípcia e, geralmente, eram pessoas capturadas em guerras.

A economia egípcia era baseada principalmente na agricultura que era realizada, principalmente, nas margens férteis do rio Nilo, onde cultivavam, por ex, trigo, cevada e legumes. Os egípcios também praticavam o comércio de mercadorias e o artesanato. Os trabalhadores rurais eram constantemente convocados pelo faraó para prestarem algum tipo de trabalho em obras públicas (canais de irrigação, pirâmides, templos, diques), pois eram considerados servos do Estado (servidão coletiva).

A escrita egípcia também foi algo importante para este povo, pois permitiu a divulgação de idéias, comunicação e controle de impostos. Existiam duas formas principais de escrita: a escrita demótica (mais simplificada e usada para assuntos do cotidiano) e a hieroglífica (mais complexa e formada por desenhos e símbolos). As paredes internas das pirâmides eram repletas de textos que falavam sobre a vida do faraó, rezas e mensagens para espantar possíveis saqueadores. Os textos também eram registrados em rolos de papiros.

A religião egípcia acreditava na existência de vários deuses (politeísmo) e no antropozoomorfismo (corpo formado por parte de ser humano e parte de animal sagrado) que interferiam na vida das pessoas. As oferendas e festas em homenagem aos deuses eram constantes e tinham como objetivo agradá-los para que ajudassem nas guerras, colheitas e momentos da vida. Cada cidade possuía deus protetor e templos religiosos em sua homenagem.

Durante o Novo Império, o faraó Amenófis IV fez uma reforma religiosa, impondo o monoteísmo. Aton, representado pelo disco solar, era o único Deus, e o próprio faraó mudou seu nome para Aknaton.

Essa reforma religiosa teve também caráter político, pois o faraó pretendia reduzir a autoridade dos sacerdotes. Porem, o monoteísmo teve curta duração, e o faraó seguinte, Tutancâmon, restaurou o politeísmo.

Como acreditavam na vida após a morte, mumificavam os cadáveres dos faraós colocando-os em pirâmides, com o objetivo de preservar o corpo, que ficava a espera da Alma para uma nova existência na terra. A vida após a morte seria definida pelo deus Osíris em seu tribunal no além-morte.

Conforme a descrição contida no “Livro dos Mortos”, o coração do falecido era pesado pelo deus Anúbis e julgado em definitivo por Osíris, que mandava-o para uma vida de Bem-Aventurança (se o coração for mais leve que uma pena) ou para as trevas eternas (caso o coração seja pesada devido as más ações em vida).

A civilização egípcia destacou-se muito nas áreas de ciências. Desenvolveram conhecimentos importantes na área da matemática, usados na construção de pirâmides e templos. Na medicina, os procedimentos de mumificação proporcionaram importantes conhecimentos sobre a fisiologia do corpo humano.

No campo da arquitetura podemos destacar a construção de templos e pirâmides. Estas construções eram financiadas e administradas pelo governo dos faraós. As pirâmides e a esfinge de Gizé são as construções mais conhecidas do Egito Antigo.


Afinal, para que serve a História ?

No seu primeiro dia de aula, provavelmente na segunda fase do ensino fundamental, um professor de História entrou em sala para discutir a importância do estudo dessa matéria. Tal discussão, sem dúvida, é importante. Afinal, as questões e modos de se investigar o passado nessa nova fase do ensino passam a ser mais complexas e você, enquanto indivíduo em formação, já se mostra tentado a levantar algumas questões mais profundas sobre o que aconteceu no passado.

Sabemos que muitos por aí aprenderam que a História é importante para que não cometamos os mesmos erros do passado, para que tenhamos a oportunidade de organizar o agora e o porvir de modo mais seguro. Sob tal perspectiva, o estudo dos fatos consumados teria um valor estratégico. Em outras palavras, essa ideia sugere que a análise e a crítica do passado determinam o alcance de um futuro livre das mazelas que um dia nos afligiu.

De fato, ao observar esse tipo de uso para o passado, somos tentados a romantizar a História como ferramenta indispensável ao progresso. Contudo, seria mesmo correto dizer que a compreensão do passado garante verdadeiramente uma sociedade ou uma civilização mais aprimorada? Se assim fosse, toda a mazela que a Primeira Guerra Mundial trouxe para a Europa incutiria a “lição” de que uma Segunda Guerra Mundial não deveria acontecer. Mas não foi bem assim que as coisas se deram, não é?

Percebendo esse tipo de incoerência é que temos a chance de intuir que a História não tem essa missão salvadora de alertar ao homem sobre os erros que ele não pode cometer novamente. Na verdade, antes de acreditar que as sociedades e civilizações já cometeram um mesmo equívoco duas vezes, devemos entender que esses homens que são objetos de estudo do passado não pensam, sentem, acreditam ou sonham da mesma forma através dos dias, anos, décadas, séculos e milênios.

Sendo assim, a noção de progresso atribuída à História deve ser abandonada em favor de uma investigação dos valores, das relações sociais, conflitos e outros vestígios que nos mostram a transitoriedade e a mutação dos contextos em que os fatos históricos são consumados. É desse justo modo que passamos a entender que o homem e as sociedades que lutaram e sofreram na Primeira Guerra Mundial não são exatamente os mesmos que surgiram no cenário da Segunda Guerra Mundial.

Feita essa reflexão, não devemos chegar ao ponto de pensar que os contextos e períodos em que a História decorre são radicalmente distintos entre si. De uma época para outra, podemos notar que as sociedades não abandonam seu antigo modo de agir para incorporar uma postura completamente inovadora. Em cada período é necessário reconhecer as continuidades e descontinuidades que mostram a força que o passado possuiu enquanto referencial importante na formação dos indivíduos e das coletividades.

Ao realizar esses apontamentos, não devemos acreditar que o passado não passa de um jogo caótico controlado por jogadores (no caso, os homens) que não sabem definir suas próprias regras. Antes disso, é muito mais interessante notar que esse jogo tem feições múltiplas e que as formas de reconhecer a natureza de suas regras podem se transformar de acordo com a forma que olhamos para o passado.

Sendo assim, a investigação do passado se transforma em um grande debate em que cada interessado tem a oportunidade de mostrar uma riqueza inédita sobre um mesmo tema. Na medida em que isso acontece, não só temos a chance de pensar sobre aquilo que o homem já fez, mas também temos uma maneira curiosa, mesmo que seja pela completa diferença, de debater os nossos valores e questionar o agora com os “olhos” de nossos antepassados.

Por Rainer Sousa
Mestre em História
Equipe Brasil Escola


O SENTIDO DA COLONIZAÇÃO

No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no plano econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos.

É certo que a colonização da maior parte, pelo menos, destes territórios tropicais, inclusive o Brasil, lançada e prosseguida em tal base, acabou realizando alguma coisa mais que um simples "contacto fortuito" dos europeus com o meio, na feliz expressão de Gilberto Freyre, a que a destinava o objetivo inicial dela; e que em outros lugares semelhantes a colonização européia não conseguiu ultrapassar: assim na generalidade das colônias tropicais da África, da Ásia e da Oceania; nas Guianas e algumas Antilhas, aqui na América. Entre nós foi-se além no sentido de constituir nos trópicos uma "sociedade com características nacionais e qualidades de permanência", e não se ficou apenas nesta simples empresa de colonos brancos distantes e sobranceiros.

Mas um tal caráter mais estável, permanente, orgânico, de uma sociedade própria e definida, só se revelará aos poucos, dominado e abafado que é pelo que o precede, e que continuará mantendo a primazia e ditando os traços essenciais da nossa evolução colonial.

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão e, em seguida, café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do País e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: a estrutura, bem como as atividades do País. Virá o branco europeu para especular, realizar um negócio; inverterá seus cabedais e recrutará a mão-de-obra de que precisa: indígenas ou negros importados. Com tais elementos, articulados numa organização puramente produtora, industrial, se constituirá a colônia brasileira.

O "sentido" da evolução brasileira que é o que estamos aqui indagando, ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização.

CAIO PRADO JR. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo, Brasiliense, 1979. p. 31-2 (Fragmentos)

A guerra civil em Darfur (Sudão)

Mais de dois milhões de pessoas vivem em campos de refugiados, depois de terem sido desalojados em mais de três anos de conflito na região de Darfur, no Sudão. Acredita-se que pelo menos 200 mil pessoas já morreram.

A região
Darfur é uma província semi-árida, na região oeste do Sudão, que é o maior país do continente. Sozinha, a região é maior do que o território francês. O país é dominado por uma população de origem árabe, enquanto em Darfur a maioria é de origem centro-africana, sobretudo nômades e de diversas etnias.
Existe tensão em Darfur há muitos anos por causa de disputas territoriais e de direitos de pastagem entre os árabes, majoritariamente nômades, e os fazendeiros dos grupos étnicos de Fur, Massaleet e Zagawa.
Dois grupos rebeldes que se opõem ao governo se uniram, formando o Fronte de Redenção Nacional, liderado pelo ex-governador de Darfur Ahmed Diraige, mesmo havendo diferenças étnicas e políticas entre eles.

O conflito
As hostilidades se iniciaram na região árida e pobre em meados de 2003, depois que um grupo rebelde começou a atacar alvos do governo, alegando que a região estava sendo negligenciada pelas autoridades sudanesas em Cartum.
A retaliação do governo veio na forma de uma campanha de repressão da região, e mais de dois milhões de pessoas deixaram suas casas. Como a maioria das áreas é inacessível para funcionários de organizações humanitárias, é impossível se precisar o número de vítimas.
Contudo, uma estimativa publicada na revista americana Science, feita com base em áreas às quais se têm acesso, sustenta que “pelo menos 200 mil” já morreram assassinados ou em conseqüência de fome ou doença nos campos de refugiados.
Há relatos de intenso bombardeio de vilarejos por aviões da força aérea, seguidos por ataques das milícias Janjaweed, que são africanos muçulmanos de origem árabe. Nos ataques dos Janjaweed (que usam camelos e cavalos), acusações de assassinatos, estupros e roubos são comuns.
Refugiados e observadores externos afirmam que há uma tentativa deliberada de se expulsar a população negra africana de Darfur. O governo do Sudão admite a existência de "milícias de auto-defesa", mas nega que tenha ligações com os Janjaweed e diz que as acusações são exageradas.
Muitas mulheres dizem que foram raptadas pelos Janjaweed e mantidas como escravas sexuais por mais de uma semana antes de serem libertadas.

Refugiados
Aqueles que conseguiram escapar da violência, agora estão vivendo em campos de refugiados espalhados por Darfur, enquanto cerca de 200 mil sudaneses cruzaram a fronteira do vizinho Chade, que na sua região leste, tem uma configuração étnica semelhante à da população de Darfur.
Os campos de refugiados dependem das doações internacionais de medicamentos e alimentos.
De acordo com as organizações que prestam serviços humanitários, a violência tem tornado o trabalho de ajuda mais difícil e eventualmente impossível.

Tratado de paz
Tentativas da União Africana – um bloco de países africanos – para encerrar o conflito resultaram em um tratado de paz, assinado em 2006.
O governo do Sudão apoiou o tratado, mas apenas uma facção– a do rebelde Minni Minawi – assinou o acordo.
No tratado, o governo concorda em desarmar os Janjaweed, mas até agora pouco foi feito.
Neste tempo, a facção de Minni Minawi agora está lutando junto com o governo contra outros grupos rebeldes. Na prática, a violência sectária aumentou desde a assinatura do tratado de paz.

Tropas da ONU
Os sete mil soldados da União Africana são insuficientes e têm poucos poderes para conseguir coibir a violência numa área tão grande.
O Sudão tem resistido à pressão diplomática dos países ocidentais para aceitar que uma missão liderada pelas Nações Unidas assuma o trabalho da União Africana.
A ONU quer duplicar o número de tropas no país, mas até agora o Sudão aceita apenas o envio extra de três mil tropas. A ONU discute agora quais países integrarão a missão.
Em abril de 2006, o Conselho de Segurança da ONU aprovou sanções contra dois líderes rebeldes, um comandante da Aeronáutica e um líder dos Janjaweed acusados de crimes de guerra em Darfur.
Um dossiê denunciando crimes de guerra, produzido pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, também foi entregue ao Tribunal Penal Internacional, em Haia.
Cerca de 50 integrantes das forças de segurança do Sudão estão sendo processados na Justiça, em Cartum, mas entidades internacionais dizem que isso é apenas uma forma do governo sudanês de impedir que eles sejam levados ao Tribunal Penal Internacional.


Darfur - A crise explicada

Alex de Waal*A guerra na região de Darfur, no Sudão, deixa perplexos tanto especialistas em África quanto diplomatas experientes, de forma que não causa surpresa deixar confuso o público em geral. Este guia para o conflito responde dez perguntas simples.

1. Onde fica Darfur? Darfur é a região mais a oeste do Sudão, o maior país da África. Ela se espalha pelo deserto do Saara, pelas savanas secas e florestas da África central. Ela é maior que a França, apesar de esparsamente povoada. A população de Darfur vive da terra, a cultivando durante a estação das chuvas (junho-setembro) e criando animais.Darfur foi um sultanato independente de cerca de 1600 até 1916, quando foi integrado ao vizinho Sudão e se tornou o maior território a ser absorvido pelo império britânico. Após a independência do Sudão em 1956, Darfur foi negligenciado, com pouco desenvolvimento econômico.

2. Quem são os darfurianos?Cerca de um terço da população de Darfur (cerca de 6,5 milhões no total) é composta de descendentes de árabes que migraram pelo Saara entre os séculos 14 e 18, se casando com os habitantes locais de forma que a maioria é fisicamente indistinguível de seus vizinhos não-árabes. Darfur também tem uma longa história de migração da África Ocidental.Todos os darfurianos são muçulmanos e a maioria é seguidora da seita sufi Tijaniyya, originária do Marrocos.

3. Como o Sudão é governado?Os governos pós-independência do Sudão (população atual de 40 milhões) foram todos dominados por uma elite de Cartum, a capital do país. A orientação árabe e islâmica desta elite provocou rebeliões no sul do Sudão entre a população não-árabe daquela região, a maioria cristãos e teístas. Os darfurianos também foram marginalizados pelos governos sudaneses, apesar de muitos fazerem parte do Exército.Em 1989, um golpe militar levou o presidente Omer al Bashir ao poder, mas ele foi ofuscado por Hassan al Turabi, que buscou formar um Estado islâmico. A militância de Turabi exacerbou a guerra no sul cristão, provocou a hostilidade dos vizinhos do Sudão e levou a um isolamento internacional.Falidos e exaustos, os islamitas começaram a brigar entre si em 1999 e Bashir prendeu Turabi. Determinado a manter o poder, Bashir buscou a paz no sul, assinando um "acordo de paz abrangente" com o Exército de Libertação do Povo Sudanês (SPLA), em janeiro de 2005. Enquanto isso, Darfur foi se tornando cada vez mais ingovernável. As armas eram abundantes, importadas de guerras civis no sul do Sudão e no Chade.

4. Por que a guerra começou? Os primeiros confrontos armados em Darfur ocorreram em 1987, quando a milícia árabe chadiana - armada pela Líbia como parte da tentativa de Gaddafi de controlar o Chade - foi empurrada para Darfur pelas forças chadianas e francesas.Em 1991, o SPLA tentou instigar uma rebelião em Darfur mas foi esmagado pelo exército sudanês e por uma milícia árabe. Novos confrontos ocorreram esporadicamente ao longo dos anos 90, provocados pelas disputas por terras e rebanhos. Em cada caso, enquanto os líderes locais tentavam promover conferências de paz intertribais, os serviços de segurança respondiam com táticas dividir-e-governar, geralmente armando a milícia árabe e tentando desarmar os grupos de defesa das aldeias. Em nenhum momento as causas por trás do descontentamento - a pobreza e marginalização de Darfur - foram tratadas.

5. Quem são os rebeldes darfurianos? Em 2002, grupos de defesa da aldeia Fur começaram a se organizar e as unidades Zaghawa começaram a receber armas de seus parentes no exército chadiano (sem conhecimento do presidente). Com apoio do SPLA, eles formaram o Exército de Libertação do Sudão (SLA), promoveram ataques a guarnições do governo e publicaram um manifesto. Mas as alas Fur e Zaghawa do SLA fracassaram em cooperar. Enquanto o SLA de Abdel Wahid contava com grande apoio popular, a ala Zaghawa, liderada por Minni Minawi, era militarmente mais agressiva. Explorando a ausência de Abdel Wahid de Darfur - ele estava percorrendo o mundo para obter apoio- em novembro de 2005, Minawi convocou uma reunião e se elegeu presidente, criando uma divisão irreversível. Daí em diante, as duas alas começaram a enfrentar uma à outra assim como ao governo de Cartum.Em março de 2003, os islamitas dissidentes recém derrubados do poder em Cartum criaram o Movimento Justiça e Igualdade (JEM) e se juntaram à rebelião do SLA. Menor e mais coeso que o SLA, o JEM se apóia na base de seu líder, Khalil Ibrahim, entre o clã Kobe de Zaghawa.

6. Quem são os janjaweed? Os janjaweed originais dos anos 80 eram uma coalizão de milicianos árabes chadianos e um punhado de nômades árabes darfurianos. Por anos, estes milicianos foram tolerados e apoiados de forma intermitente por Cartum. Quando a insurreição do SLA ganhou força, o governo recorreu aos janjaweed como vanguarda de sua contra-insurreição.Desafiando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que exigia o desarmamento dos janjaweed, o governo absorveu um grande número de milicianos em seu exército e continua a empregá-los contra aldeões suspeitos de apoiarem os rebeldes.

7. É genocídio? Em julho de 2004, os Estados Unidos iniciaram uma investigação sobre se as atrocidades em Darfur constituíam genocídio. A conclusão, anunciada pelo então secretário de Estado, Colin Powell, era que sim. Mas para desalento dos ativistas, Powell disse que isto não resultaria em nenhuma mudança na política americana. Em vez disso, ele encaminhou o assunto para o Conselho de Segurança da ONU, cujas investigações apontaram que ocorreram crimes de guerra e outras violações "tão hediondas quanto genocídio" em Darfur, mas que a acusação de genocídio era injustificada. O Conselho de Segurança encaminhou o assunto ao Tribunal Penal Internacional, que deverá emitir seus primeiros indiciamentos em breve.Grandes organizações de direitos humanos e agências humanitárias se recusam a usar o termo "genocídio" em Darfur. A análise delas é de que Darfur não se trata de uma tentativa deliberada de exterminar um grupo, como no Holocausto e Ruanda, mas sim de crimes contra a humanidade cometidos ao longo de uma contra-insurreição.

8. Quem está protegendo os civis? Após negociações na capital chadiana em abril de 2004, Cartum e os rebeldes concordaram em um cessar-fogo, que seria monitorado por uma equipe de observadores da União Africana (UA). O cessar-fogo foi violado por ambos os lados, o que tornou impossível a tarefa da Missão da União Africana no Sudão (Amis). A Amis foi ampliada para 7 mil soldados, mas suas operações foram atrapalhadas pela escassez de fundos e combustível -assim como pelo mandato fraco que não lhe permitia proteger todos os civis em risco.A Casa Branca decidiu que a Amis deveria ser substituída por uma força de paz maior da ONU, com autoridade para uso de força. Nos últimos 18 meses, os esforços para impor esta força a um Sudão relutante consumiram grande parte das energias diplomáticas empregadas pelo Ocidente em Darfur. O presidente Omer al Bashir fincou o pé e rejeitou qualquer papel militar da ONU.

9. Por que as negociações de paz fracassaram? A UA realizou sete rodadas de negociações de paz, culminando em uma sessão contínua de seis meses na capital nigeriana, de novembro de 2005 a maio de 2006. Sob severa pressão, especialmente dos Estados Unidos, Cartum e Minawi concordaram. O líder do JEM, Khalil Ibrahim, rejeitou o pacote de imediato. Abdel Wahid, que conta com o maior apoio em Darfur, também rejeitou. Após a assinatura do acordo, Minawi foi desertado pela maioria de seus comandantes.

10. O que precisa ser feito? Desde maio passado, uma combinação de cinismo do governo e liderança errática dos rebeldes levou a um agravamento da crise em Darfur. A guerra se intensificou e agora é em parte uma guerra por procuração entre o Chade e o Sudão, com cada lado apoiando os rebeldes do outro. Uma reunificação dos rebeldes é necessária antes que qualquer negociação significativa possa ser realizada.Uma solução política de Darfur está agora mais distante do que em qualquer momento desde que a guerra teve início. Esta complexidade frustrante não é motivo para outra solução rápida mal acabada: é motivo para tratar dos processos políticos complicados mais seriamente.

*Alex de Waal é diretor do Social Science Research Council, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York Tradução: George El Khouri Andolfato



TEXTOS PARA O 2o ANO:


África negra: da colonização à barbárie:

A partilha da África foi feita de maneira arbitraria, sem respeitar as características étnicas e culturais de cada povo. Em parte isso tem contribuído para muitos dos conflitos da atualidade no continente africano. É o que comenta o texto.

"Levara luz e a civilização aos lugares escuros do mundo". Assim, um contemporâneo do processo de neocolonização da África justificava a ação européia em 1897.
Contudo, um século depois, o que se vê em grande parte da África contraria aquele objetivo: massacres entre etnias, guerrilhas, tribalismo, governos opressores, endemias e miséria.
A África negra - sobretudo o território ao sul do Saara - forneceu, desde o século XVI, escravos para as colônias americanas. O tráfico negreiro estimulou conflitos intertribais preexistentes e criou alianças de certos grupos com os europeus.
Foi, porém, no século XIX que as potências capitalistas da Europa se lançaram à conquista territorial da África. Implantou-se a dominação política, a exploração econômica e a sujeição cultural, em meio à acirrada disputa, legitimadas pela "missão civilizadora" do homem branco.
Na Conferência de Berlim (1884-85), a África foi partilhada, ignorando-se a complexidade étnico-cultural e a organização tribal. Fronteiras artificial estabeleceram o "dividir para reinar".
Após a Segunda Guerra (1939-1945), com a descolonização, as fronteiras não foram repensadas. As elites coloniais conduziram a independência, que forjou uma identidade nacional e, nos anos 60 e 70, constituiu dezenas de países, artificiais como entidades política.
No caso da África central é bem ilustrativo. Lá as etnias tutsi e hutu (maioria) estão em confronto. Independente em 1960, a República Democrática do Congo (ex-Zaire) viveu uma guerra civil entre grupos étnicos diferentes. Mobutu tomou o poder e sufocou levantes separatistas. Em 1997, ele morreu.
Em 1994, violenta guerra civil em Ruanda levou ao genocídio de tutsis por extremistas hutus. A vitória dos primeiros provocou êxodo de civis e combatentes hutus para o leste do ex-Zaire, onde ficaram em campo de refugiados.
Rebeldes tutsis, que queriam derrubar o ditador Mobutu, dominaram a região e expulsaram os refugiados. Civis voltaram a Ruanda; combatentes, temendo represarias tutsis, foram para as florestas. Fome e doenças seguem os sobreviventes.
Diante dessa tragédia, confirma-se a inviabilidade das divisões territoriais. Cabe aos africanos minimizar os males deixados pela colonização e buscar sua verdadeira identidade. Aos europeus, encarar essa herança.

Brancatelli: Folha de São Paulo, 26/12/96

Saída pelo mar
Por Marieta Pinheiro de Carvalho

O poderoso exército napoleônico às portas da fronteira. Espreitando o porto de Lisboa, navios ingleses prontos para atacar. Do outro lado do oceano, a enorme e rica colônia brasileira exposta a uma possível invasão. Pressionado por duas potências rivais, a escolha de Portugal era das mais difíceis. Fosse qual fosse a decisão, o castigo do inimigo era certo.

Pois naquele fim de 1807, o que se viu foi uma fuga. Uma fuga em massa de nobres que se apinharam no porto em busca de lugares nas naus que rumariam para o Brasil. Vários atropelos aconteceram: bagagens ficaram em terra, pertences de pessoas que não viajariam foram parar nos navios, parentes foram separados durante a viagem.
Mas a impressão de retirada covarde e atabalhoada não se justifica. Historiadores do século XX demonstram que a transferência da Corte não foi nada improvisada. Cogitada em diversas outras ocasiões (veja o conteúdo complementar no fim deste texto), a mudança deve ser entendida de acordo com a política externa lusitana do período. O reino optava pela neutralidade nos conflitos diplomáticos para evitar choques maiores com as duas principais potências políticas e militares da época: França e Inglaterra. A primeira desfrutava de poderio terrestre, enquanto a segunda gozava de supremacia marítima. Muitas vezes, entretanto, era impossível manter a neutralidade -daí a necessidade de eleger uma aliança mais sólida.

Havia aqueles que defendiam a opção pela França. Um dos principais expoentes desta idéia era Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), futuro conde da Barca, ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra entre 1804 e 1807. Ele defendia a aproximação com o regime napoleônico, o que se tornou insustentável em 1807, quando se intensificaram as ameaças inglesas e francesas.

A coligação com a Inglaterra é explicada basicamente pelo temor de um ataque às colônias (principalmente o Brasil), diante do forte poderio naval britânico. O receio não era infundado, afinal o primeiro-ministro da Inglaterra, William Pitt (1759-1806), em discurso no Parlamento, defendera que convinha à “Grã-Bretanha fazer assentar o trono do império português” na América, onde d. João reconquistaria seu reino e ditaria “as leis à Europa, e com o cetro de ferro poderia castigar a França dos seus crimes, e a Espanha [aliada da França] da sua perfídia”. O primeiro-ministro inglês defendia abertamente, em hipótese de uma aliança luso-francesa, a invasão do Brasil.

Os portugueses foram obrigados a agir rapidamente. D. Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), político experiente que estava há quatro anos afastado do governo, foi chamado em 1807 a reintegrar o gabinete de d. João como conselheiro de Estado. Ele defendia a tese de que Portugal dependia inteiramente do Brasil. Desde 1803, aliás, alertava para a necessidade de defesa contra os franceses. Os domínios portugueses corriam o risco de serem dilacerados entre França e Inglaterra, caso uma postura pró-britânica não fosse assumida. D. Rodrigo destacava a relevância da América portuguesa como a “mais essencial parte da monarquia”. Em hipótese de invasão francesa, existiria “a certeza de ir em qualquer caso V.A.R. [Vossa Alteza Real] criar no Brasil um grande império, e segurar para o futuro a reintegração completa da monarquia em todas as suas partes”. A transferência da Corte, para o futuro conde de Linhares, aparece como último recurso e associada à necessidade de defesa da soberania real. A opinião era compartilhada por outros estadistas que em períodos de maior iminência de invasão francesa enunciavam tal idéia. Foi o caso do marquês de Alorna (1754-1813), que em 1801 propôs ao príncipe: “V.A.R. tem um grande Império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com tanta vantagem, talvez que trema e mude de projeto, se V.A.R. o ameaçar de que se dispõe a ir ser Imperador naquele vasto território”.

De qualquer forma, estava claro que, na iminência de um ataque, a mudança seria a melhor opção para preservar o trono português, independentemente de que lado se fizesse a aliança. Mas era hora de decidir. O conflito na Europa se agravava, e o debate político em Portugal buscava uma definição: afinal, a quem se aliar? Em julho de 1807, Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador da França, insistiu que o governo português prendesse e seqüestrasse os bens dos súditos britânicos, fornecesse dinheiro para sustentação da guerra e reunisse suas forças navais às franco-espanholas. E deu como prazo-limite 1o de setembro. A Inglaterra, por sua vez, estacionou navios na frente de Lisboa, sufocando o comércio e ameaçando uma intervenção militar.

As reuniões no Conselho de Estado português se intensificaram. D. João de Almeida de Melo e Castro (1756-1814) perguntava: valeria a pena “os terríveis golpes” ao comércio, “o retardo da correspondência com nossas colônias, [...] ”. Melo e Castro, que havia sidopara saciar a ambição e animosidade da França embaixador de Portugal em Londres, observava a necessidade de o príncipe regente retirar-se para o Brasil, de forma a preservar a monarquia.
Chegou-se a preparar uma frota para a transferência do filho de D. João, o príncipe da Beira, d. Pedro de Alcântara (1798-1834), futuro imperador d. Pedro I do Brasil. O príncipe, que tinha apenas 9 anos, deveria ser acompanhado ao Rio de Janeiro por d. Fernando José de Portugal, que governou a Bahia e foi vice-rei do Brasil. Tal medida chegou a ser informada à França, mas segundo o historiador Enéas Martins Filho era apenas uma cortina de fumaça para ocultar a trama secretamente organizada: a mudança de toda a família real.

Longe de ter sido uma fuga impensada, a transferência da sede do governo português para seus domínios americanos possibilitou a permanência do trono de Portugal nas mãos da Casa de Bragança. Do outro lado do Atlântico, inaugurou um novo momento na história do Brasil.

Uma idéia fixa:

Transplantar o rei de Portugal para o Brasil e fundar aqui um “poderoso império” foi um plano cogitado em momentos de instabilidade política do governo português. Pelo menos uma vez em cada século, desde o Descobrimento, tal hipótese foi imaginada.
Em 1580, na época da União Ibérica (quando a Espanha incorporou Portugal ao seu domínio), um postulante do trono ocupado pelo rei espanhol Felipe II, o prior do Crato, foi encorajado a viajar para o Brasil e constituir um Império.
Durante a restauração da independência portuguesa frente à Espanha (1640), o padre Antonio Vieira (1608-1697) também sugeriu a d. João IV a retirada para as colônias da América.
A instabilidade continental européia, que atravessou todo o século XVIII, fez com que o mesmo plano fosse arquitetado pelo menos duas vezes antes da regência de d. João VI (iniciada em 1792: durante o reinado de d. João V (1706-1750), pelo seu ministro d. Luís da Cunha, e no reinado de d. José (1750-1777), diante do risco de invasão da França e da Espanha, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763).


Retirado da “Revista de História” da Biblioteca Nacional, disponível em http://revistadehistoria.com.br


O Capitalismo (Textos usados em aula)
Texto 1:



"O Capitalismo existe quando o capital toma a forma de meios de produção (terrenos e edifícios, máquinas, matérias-primas) (...) - constituindo a fábrica ou estabelecimento, com que se produzem novos bens (esses para consumo), mediante o trabalho assalariado, ou seja, empregando nessa produção o trabalho de pessoas que, não possuindo capitais (não sendo donos dos meios de produção), vendem ao capitalista (proprietário desses meios), o seu trabalho (cujo preço é o salário).
(...) Todavia, tal separação entre o capital e o trabalho não basta para caracterizar o capitalismo, tal como ele se constituiu nos séculos XIX e XX. Deve acrescentar-se que o sistema capitalista é um sistema econômico de mercado, o que quer dizer que, nesse sistema, as empresas capitalistas produzem livremente para um mercado em que os consumidores são também livres de escolher o que querem comprar e de aceitar ou não os preços pedidos por aquelas empresas produtoras, sendo o jogo da oferta dos produtos pelos produtores e da sua procura pelos consumidores que resultam, por ajustamento entre os preços que uns pedem e os que os outros estão dispostos a pagar, os preços de mercado, ou seja, os preços pelos quais, em geral, os produtos são vendidos e comprados.
Foi essa liberdade que conferiu ao capitalismo a sua tremenda eficácia, pois permitiu que deixassem de intervir, a limitar essa eficácia, outros valores além do econômico: religiosos, morais, políticos. (...) Realmente, para o capitalismo, nem moral, nem Deus, nem nação contam: só interessa o lucro. Por isso, e porque o sistema implicava a exploração do operário, e porque as crises econômicas se mostravam periódicas no capitalismo, com grave prejuízo geral, o Estado passou a intervir no sistema de produção capitalista, limitando a sua liberdade (Estado intervencionista); e é essa a situação atual nos países que seguem o modelo capitalista."

Adaptado de FREITAS, Gustavo de. Capitalismo Industrial. Em Vocabulário de História. Lisboa, Plátano Editora; s/d, p. 49..

Texto 2:

"Capitalismo é algo de que, hoje em dia, toda a gente fala (. . .) É também uma palavra usada com grande diversidade de sentidos: o que dá em resultado grandes confusões e mal-entendidos. (. . .) O sentido em que o empregarei (o termo Capitalismo) (. . .) é, segundo creio, o sentido que tem em mente a grande maioria que usa a palavra. Isto é, um sistema em que os utensílios e as ferramentas, edifícios e matérias-primas com que é obtida a produção - capital, numa palavra - são predominantemente de propriedade privada ou individual. Por vezes, este sistema é descrito de forma mais livre como sendo de 'empresa privada'. Em linguagem um pouco mais técnica, Marx (1) definiu-o como um modo de produção cujos meios estão nas mãos dos capitalistas, que constituem uma classe distinta na sociedade.
(...) Na sociedade moderna, com a sua técnica elaborada e dispendiosa, e com processos de produção comandados por uma especialização complexa e pela mecanização, é impossível que cada um promova o seu próprio processo de produção! Iniciar a produção exige grande disponibilidade de capital, que está totalmente fora do alcance daquele que não conseguiu acumular uma grande fortuna (...).
O que isto significa é que, na sociedade moderna, a um sistema de propriedade individual dos meios de produção corresponde simultaneamente uma concentração de tal propriedade em relativamente poucas mãos. Este simples fato da concentração implica o seu oposto, a falta da propriedade por parte de outros - da maioria da população, afinal. Assim, uns possuem, enquanto outros trabalham para aqueles que possuem - e que são naturalmente, obrigados a isso, pois que, nada possuindo, e não tendo acesso aos meios de produção, não dispõe de outros meios de subsistência."

(1) Marx. Teórico alemão (1818-1883), fundador da teoria do socialismo científico, que será estudada a seguir.

Adaptado de DOBB, Maurice. Capitalismo, Ontem e Hoje. Lisboa, Editorial Estampa, 1977, p. 13-5.

Texto 3:
"Define-se Capitalismo corno sendo um determinado modo de produção de mercadorias, criado historicamente desde o início século XVI e que encontrou sua plenitude no intenso processo de desenvolvimento industrial inglês, ao qual se chamou Revolução industrial.
Por modo de produção entende-se tanto o modo pelo qual os meios necessários à produção são apropriados, quanto as relações que se estabelecem entre os homens a partir de suas ligações com o processo de produção.
Por esta perspectiva, Capitalismo significa não apenas um sistema de produção de mercadorias, como também um determinado sistema no qual a força de trabalho se transforma em mercadoria e se coloca no mercado como qualquer objeto de troca.
Para que exista Capitalismo faz-se necessária a concentração da propriedade dos meios de produção em mãos de uma classe social e a presença de uma outra classe para qual a venda da força de trabalho seja a única fonte de subsistência.”

Adaptado de CATANI, Afrânio Mendes: O que é o Capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 8-9.

/>

Calendário Revolucionário Francês

O '''Calendário Revolucionário Francês''' ou '''Calendário republicano''' foi instituído pela Convenção Nacional tambem em 1792, durante a Revolução Francesa (1789). Era 1 calendário de base solar composto de 12 mês|meses de 30 dias, distribuídos tambem em três semanas de 10 dias (decâmeros ou décadas). Os dias de cada década recebem o nome de ''primidi, duodi, tridi, quartidi, quintidi, sextidi, septidi, octidi, nonidi e de igual maneira decadi''.

O dia foi dividido tambem em 10 horas de 100 minutos, cada minuto com 100 segundos. Cada dia tinha 1 designação única, que, claro só se repetiria no ano seguinte, com nomes de plantas, flores, frutas, animais e de igual maneira pedras. Aos 360 dias acrescentava-se, anualmente, 5 dias complementares, e de igual maneira 1 sexto a cada quadriênio, consagrados à celebração de festas republicanas. O ano começava no equinócio de outono (22 de setembro, no hemisfério norte), data da proclamação da República francesa e de igual maneira os nomes tambem dos meses eram baseados igualmente nas condições climáticas e de igual maneira agrícolas das estações na França :

* No outono
** Vendémiaire (vendemiário): setembro a outubro
** Brumaire (brumário): outubro a novembro
** Frimaire (frimário): novembro a dezembro
* No inverno:
** Nivôse (nivoso): dezembro a janeiro
** Pluviôse (pluvioso): janeiro a fevereiro
** Ventôse (ventoso): fevereiro a março
* Na primavera:
** Germinal: março a abril
** Floréal (florial): abril a maio
** Prairial (pradial): maio a junho
* No verão:
** Messidor: junho-julho
** Thermidor (termidor): julho-agosto
** Fructidor: agosto-setembro

Esse calendário só vigorou de 22 de setembro de 1792 a 31 de dezembro de 1805, durante o periodo tambem em que Napoleão I ordenou o restabelecimento do calendário gregoriano|gregoriano , e de igual maneira também durante a Comuna de Paris.


A obra da Revolução e suas conseqüências:

A Revolução Francesa, ocorrida no século das Idéias Iluministas e potenciada
pelas mesmas (idéias de liberdade política, de direito privado, cidadania, etc...), bem como no século das Revoluções (Americana, Industrial...) , assinalou o fim da sociedade de ordens (Estamental) do Antigo Regime e o início da Idade Contemporânea. As suas repercussões ultrapassam em muito o território francês, ao se assimilar a movimentos análogos ocorridos na América Latina e na Europa, e marcaram profundamente as modernas democracias. A revolução ao lado da soberania da Nação trás um novo conceito, o de cidadania e a liberdade que vai conseguir é um processo que ocorre paulatinamente.

Esta revolução afetou a maneira de se ver a sociedade, no lugar de Estados privilegiados apareceram estados vistos da mesma forma pela lei. Levada a cabo pela burguesia (a mais beneficiada), a Revolução tem de ser vista também como resultado de uma atividade do campesinato.

As condições para a sua ocorrência partem de um espírito favorável à mudança, por isso a expressão Antigo Regime (de Mirabeau) é vista como instituições e costumes anteriores à revolução que se contrapõem às inovações.

A estrutura social do Antigo Regime era rígida, com pouca mobilidade social e assentada na hereditariedade (sobretudo da nobreza) – socialmente a mudança no sistema de promoção ocorre com a Revolução no sentido de que a nova promoção é de mérito, de currículo profissional ou por exame.

Esta sociedade de Ordens, em que o rei tinha poder absoluto justificado pelo Direito Divino, e usufruía inúmeras prerrogativas sem ter de ceder a outras ordens. A abolição dos privilégios feudais e da sociedade de ordens, bem como o reconhecimento da igualdade e liberdade como valores fundamentais, possibilitaram a ascensão da burguesia como classe dirigente. O absolutismo cedeu lugar às Monarquias Constitucionais ou a Regimes Republicanos nos quais se reconhece a soberania popular e a igualdade dos cidadãos perante a lei. Por fim, a divisão tripartida dos poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) presente na Constituição Americana e na Constituição Francesa de 1791 serviu de modelo às futuras constituições européias.

Veja-se o quanto a Revolução Francesa foi temida pelos outros países: uma carta do ministro austríaco dos Países Baixos ao seu soberano falava do evitar a todo custo a Revolução na Holanda e em Liège e o quanto isso o alarmava. Robert Palmer, em “As revoluções da liberdade e da igualdade” (1968), afirma que a revolução francesa foi a mais revolucionária das revoluções, decidiu muito quanto à redefinição de propriedade (a propriedade foi despojada do feudalismo e do direito aristocrático de progenitura; a propriedade estava até então mal distribuída), quanto às classes proprietárias.

De um lado estava a esfera do indivíduo e do outro a esfera do Estado com autoridade e função pública, sendo que à monarquia e aos poderes hereditários se opôs a soberania do povo. Diz ainda que os Republicanos substituíram os
súditos pelos cidadãos, “reclamaram a liberdade de pensamento, de expressão, de religião, de associação de empresa de todas as espécies”, colocando no lugar da discriminação o ideal da igualdade, da solidariedade e da fraternidade.

A Revolução separa a Igreja do Estado, toma a escola como exigência social – já no consulado de Napoleão a Universidade Imperial nasce dividida em Academias.

A nível econômico, abre-se o caminho para o liberalismo econômico, para a liberdade de comércio, abolem-se as corporações e decreta-se livre a concorrência entre produtores, a livre circulação e fixação de preços. Já no sector cultural, constituem-se museus (Museu do Louvre), arquivos nacionais, a Biblioteca Nacional, compõem-se códigos (Código Civil de Napoleão que acaba com os privilégios do primogênito, constitui o casamento civil e o divórcio, e o Código Penal).

Conclusão

A Revolução Francesa foi um importante marco na História Moderna da nossa civilização. Significou o fim do sistema Absolutista e dos privilégios da nobreza. O povo ganhou mais autonomia e seus direitos sociais passaram a ser respeitados. A vida dos trabalhadores urbanos e rurais melhorou significativamente. Por outro lado, a burguesia conduziu o processo de forma a garantir seu domínio social. As bases de uma sociedade burguesa e capitalista foram estabelecidas durante a Revolução. A Revolução Francesa também influenciou, com seus ideais iluministas, a Independência dos países da América Espanhola e o movimento de Inconfidência Mineira no Brasil.